É uma realidade
indesmentível: nos tempos que correm, é impossível prever o futuro. A
conjuntura, as preferências dos clientes, a tecnologia, tudo se altera
com demasiada rapidez para que o gestor possa analisar
aprofundadamente a realidade, estabelecer planos de acção, avaliá-los
e colocá-los em prática. A solução, defendem Michael Fradette e Steve
Michaud, consultores da Deloitte Consulting, é construir uma empresa
capaz de se adaptar muito rapidamente, uma empresa kinética. Os dois
objectivos fundamentais de uma empresa kinética são extremamente
ambiciosos:
Servir um único cliente: a empresa kinética tem que conseguir
cada um dos seus numerosos clientes de forma completamente
individualizada
Reagir imediatamente: a empresa kinética tem que conseguir
reagir ao segundo a todas as alterações nas expectativas dos clientes
e às alterações do mercado.
São cinco os modos, a serem accionados simultaneamente, para tornar
uma empresa pronta para o mundo dos negócios actual.
PASSO 1 - Criar uma nova liderança
Factor essencial e prévio a qualquer transformação de uma organização
no sentido de a tornar mais adaptada à instabilidade é uma atitude da
liderança. São os dirigentes da empresa que a transformam numa
organização kinética. Para isso, terão que prosseguir cinco objectivos
diferentes e complementares:
Estabelecer os objectivos estratégicos: Ao contrário das
empresas tradicionais, onde a estratégia é algo de muito bem planeado
e que implica uma certa rigidez, numa empresa kinética o papel da
liderança é a de provocar os colaboradores a encontrarem novas formas
de atingir os objectivos da empresa.
Definir as fronteiras estratégicas. A liderança tem que definir quais
são os limites onde a empresa vai operar: limites geográficos,
psicográficos, sectoriais, etc., de modo a evitar um fluxo de novas
ideias que se arriscam a colocar a empresa fora da sua rota
estratégica aumentando a dispersão e, consequentemente, a confusão.
Questionar as fronteiras estratégicas: Apesar da importância de
definir fronteiras estratégicas é também decisivo que estas fronteiras
não sejam completamente fechadas. Se algum colaborador tiver uma ideia
fora dos limites previamente estabelecidos mas que se enquadre numa
visão mais alargada da empresa, tem que poder apresentar a sua
proposta.
Promover a troca de ideias: Não basta aos líderes estabelecer
os objectivos e as fronteiras estratégicas. Têm de encorajar os seus
colaboradores a inovar ao nível dos produtos, serviços, procedimentos
e relacionamentos, participando activamente nas discussões. Isto só é
possível se se criar um clima propício dentro da organização.
Tomar as decisões em tempo real: Como as decisões precisam de
ser tomadas com extrema rapidez, os líderes não podem analisar cada
questão com ponderação. Em consequência deverão ter muita confiança
nos seus subordinados, na primeira linha, e delegar-lhes parte
apreciável das decisões. O empowerment é essencial para a organização
poder reagir rapidamente PASSO 2
- Constituir a mão-de-obra adequada
Dois caminhos são possíveis quando se pretende ter uma equipa de
colaboradores constituída por pessoas que compreendem, apreciam e
sabem trabalhar numa empresa kinética. A organização pode contratar
esta mão-de-obra já com as capacidades necessárias ou pode formar o
pessoal existente para lidar com a nova realidade no mundo dos
negócios.
Contratar: O que é importante identificar nos candidatos a um
lugar numa empresa kinética não é tanto os conhecimentos ou a
experiência passada mas sim algum talento, uma abertura de espírito e
uma personalidade que se possa adaptar a uma nova forma de ver a
empresa e o mercado.
Formar: A transformação dos recursos humanos de uma organização
para que actuem de forma kinética não é fácil e leva tempo. Mais do
que acções de formação, é essencial mostrar as vantagens de trabalhar
de uma forma totalmente nova, dando maior autonomia e flexibilidade
aos colaboradores.
Independentemente de como foram conseguidos os recursos humanos
kinéticos, um facto é indissociável desta nova forma de trabalhar. Se
os colaboradores têm mais liberdade de acção e mais responsabilidade,
devem também ser recompensados de forma directa pelas suas
realizações, não só pelos resultados mas também pelas suas atitudes e
os seus comportamentos. PASSO 3 -
Construir uma nova arquitectura organizacional
Enquanto as empresas tradicionais estão concebidas de forma a
maximizar a sua produtividade e eficiência, a organização das empresas
kinéticas baseia-se num sistema que permita responder a cada cliente
individualmente e agir ao segundo. São várias as regras a seguir:
Montar regras para o trabalho simultâneo: para uma empresa
conseguir reagir ao segundo vai ter que esquecer as rígidas definições
de funções dos variados postos de trabalho na empresa. A flexibilidade
dos colaboradores é fundamental para que todos possam trabalhar ao
mesmo tempo, alterando as tarefas em função das necessidades.
Montar redes de colaboração e aprendizagem: suportados nas
Tecnologias de Informação, são necessários canais para que pessoas
situadas em pontos diferentes e com experiências diversas possam
auxiliar-se mutuamente na realização de determinado projecto para a
empresa.
Montar redes tecnológicas: as redes informáticas têm que estar
concebidas de forma a permitir a mais completa partilha da informação.
Só assim a cooperação entre colaboradores da empresa pode ser eficaz.
Desenhar a tecnologia dos processos: a empresa kinética tem que
poder satisfazer os desejos individuais de cada cliente. Para obter
uma customização até ao limite, os processos têm que ser construídos
de forma a permitir a máxima flexibilidade.
Conceber a estrutura física: até a estrutura física onde
assenta a organização (escritórios, fábrica, armazéns, etc.) tem que
ter a capacidade de se adaptar às circunstâncias de mercado. Um
exemplo evidente é a preferência por escritórios em open space.
PASSO 4 - Servir os clientes individualmente
Uma das premissas essenciais na base de uma empresa kinética é que
esta tem que ser capaz de servir cada cliente de forma
individualizada, aumentando assim a satisfação e a lealdade deste. O
modo de o fazer leva à construção de uma organização em que o cliente:
Estabelece ele próprio a relação que pretende ter com a organização
Personaliza os produtos e serviços como entende de forma a obter a
máxima satisfação
Inventa ele próprio novos produtos e serviços escolhendo no conjunto
das ofertas da empresa os elementos que prefere
Constrói soluções totais exigindo à empresa não o fornecimento de um
produto ou serviço mas a solução de um problema específico.
PASSO 5 - Antecipar-se ao mercado
Inovar junto dos clientes individuais não é suficiente para garantir o
sucesso no mundo altamente imprevisível e extremamente concorrencial
dos nossos dias. É também necessário inventar permanentemente novos
produtos ou serviços que ainda não foram pensados pela concorrência
nem pedidos expressamente pelos clientes. Isto acontece quando um ou
vários colaboradores da empresa, individualmente ou em conjunto antevê
uma oportunidade no mercado, monta uma equipa para desenvolver a ideia
e apresenta a solução aos colegas e à direcção. Isto só é possível
numa empresa kinética, ou seja com todas as características de
flexibilidade, delegação de poderes, clima cooperativo entre os
colaboradores e empowerment apresentadas anteriormente. As novidades
podem surgir a vários níveis:
Reformular operações e processos: são os trabalhadores, nas mais
variadas posições hierárquicas da empresa, que encontram novas formas
de organizar o trabalho interno de modo a satisfazer melhor os
clientes.
Reinventar os relacionamentos com os clientes e imaginar novos
produtos e novos serviços.
Inovar nas relações com fornecedores, com parceiros de negócio e até
com empresas concorrentes.
Inventar novos negócios: se o produto ou serviço, ou a gama de
produtos ou serviços, for suficientemente relevante pode fazer sentido
criar uma nova pequena empresa ligada à empresa-mãe dedicada à
exploração e desenvolvimento do novo negócio. |